E a notícia chegou como uma bomba - destruindo tudo à minha volta, minhas esperanças, meus desejos, meus anseios, enfim, minha vida! Minha mãe é portadora de Mal de Alzheimer! Aquela criatura que me colocou no mundo, me fez virar um ser humano íntegro e lutou com todas as suas forças para que eu me tornasse uma pessoa "de bem", está agora à mercê de sua própria sorte, à espera de um milagre divino ou apenas de uma morte indolor...
Volto no tempo e tento me recordar onde tudo começou... Há cerca de 9 nos atrás, minha mãezinha, que antes era uma mulher ativa, alegre, disposta e infinitamente positiva, passou a ser uma pessoa mais pacata, caseira, um tanto quanto medrosa e, principalmente, dependente de mim. Passou a ter dificuldades para subir escadas, passear no shopping (coisas que fazíamos regularmente), se tornou uma pessoa mais amarga e começou a se esquecer de fatos que antes eram de suprema importância para ela... Estive em muitos médicos e todos eles diziam que o problema dela se resumia em seus ciúmes de mim... Sempre tive uma relação muito forte com minha mãe, afinal, fomos criadas juntas, agarradinhas mesmo - dormimos em cama de casal até o dia em que me casei. Minha mãe sempre foi minha melhor amiga, meu esteio, minha meta de mulher, minha vida, meu amor! Então, era fácil entender se houvesse ciúmes em nossa relação. E eu não conseguia aceitar que aquele "ciúme" pudesse causar nela conseqüências maiores como eu estava vendo! E continuava em minha infinita saga à procura de uma tábua de salvação que pudesse me dizer exatamente qual o problema que a afligia. Até psiquiatra me fizeram levar minha mãe! E todos, sem exceção, tinham o mesmo laudo - o problema era o "ciúme"! E o tempo foi passando... eu tentava acomodar as coisas de forma que não magoasse minha mãezinha - deixei de viajar e passar longo tempo ausente, telefonava regularmente quando eu estava fora de casa, confesso que perdi a paciência várias vezes com ela, achando que tudo se resumia a um "ciúme" doentio... Porém, paralelamente, verificava que seu estado ia se tornando cada vez pior a cada dia que se passava e reiniciava minha "tourné" pelos médicos... Descobrimos, finalmente, uma suposta "hidrocefalia" no ano passado. Levei minha mãe ao melhor especialista da área de neurologia. A orientação que recebemos, naquela época, foi de que não existe tratamento para idosos com hidrocefalia e que teríamos de aprender a conviver com as possíveis conseqüências desta doença. Uma querida amiga, professora de hidroginástica de minha mãe até o início do ano passado, havia me contado que sua mãe falecera com Mal de Alzheimer - cada detalhe que ela me contava e as lágrimas escorriam pelo meu rosto, inundando meu coração de dúvidas e medo. Chegando em casa, procurei na net tudo que se referia àquela doença maldita e verifiquei que haviam vários pontos em comum entre os sintomas apresentados por minha mãe e os descritos nos sites. Teimosamente, recorri a um novo neuro, que me foi indicado por uma outra amiga que havia sofrido um derrame e que em menos de dois meses passou de uma CTI para longas caminhadas sozinha pela Copacabana. Faz mais ou menos uns 6 meses que venho acompanhada por este médico. Inicialmente ele havia concordado com o parecer do primeiro neurologista e eu nunca cogitei com ele da hipótese de ser Doença de Alzheimer (DA), porém, em virtude dos acontecimentos dos últimos dois meses e da progressiva mudança no comportamento de minha mãe neste pequeno período, ontem me vi forçada a escutar este diagnóstico.
Procurei com todas as minhas forças não me deixar desabar na frente da minha mãe ao ouvir aquelas palavras! Porém, ao chegar em casa, fui correndo procurar nos sites constatar aquilo que eu já tinha certeza fazia tempos, mas que só agora eu era obrigada a acreditar. E aqui começa minha dor - não por saber que ela possui a doença, mas por saber o que ainda a espera! Cada frase que eu leio é como uma fisgada forte em meu coração e, invariavelmente, me bate uma dor profunda ao recordar que foram tantos anos de busca infindável e esperanças destruídas.
Neste meio tempo, duas coisas muito importantes aconteceram - eu conheci o amor da minha vida, Alvaro, meu anjo de luz, meu companheiro e amigo, que me enche de força e de esperança e me faz acreditar que pode existir um futuro para mim e minha mãezinha! O segundo acontecimento foi minha aproximação com o espiritismo de Allan Kardec - não posso simplesmente pensar que estamos aqui sem algum motivo e aceitar a morte como um ponto final! Preciso crer que minha mãe passa por este momento por algum motivo em especial e que, principalmente, após a sua morte, eu possa ter a certeza de reencontrá-la! Poucos são os amigos verdadeiros nessas horas, poucos os familiares que se dispõe a ajudar e dividir a carga que provavelmente há de vir, porém, resta a esperança de que Deus seja misericordioso e que não deixe minha mãezinha sofrer mais do que Ele ache o necessário... Vou tentar seguir minha vida, ser o apoio e o suporte que minha mãe, com certeza, irá precisar! Vou tentar viver cada dia como se fosse o último e dar a ela todo o amor que existe em meu coração! Rogo a Deus com todas as minhas forças que não a deixe sofrer e que, de uma forma ou de outra, se eu puder ajudar a carregar a sua cruz, que deixe a parte mais pesada em meus ombros porque tenho certeza de que eu posso melhor suportá-la! Se Ele achar que não pode dividir o peso da cruz, então eu rogo que a leve para junto D'Ele para evitar o seu sofrimento... Por isso me recuso a dizer que é um longo adeus! É simplesmente um "até breve!" porque tenho absoluta certeza que eu a reencontrarei onde estiver!
Mel Gama

Uma homenagem à minha mãe - Laysi de Souza Campos

Em tempo: Graças à ABRAZ (Associação Brasileira de Alzheimer), na pessoa da Dra. Fátima Fernandes Christo , o diagnóstico de Alzheimer anteriormente dado à minha mãe foi descartado. Graças a Deus!