Mel Gama


 

A QUESTAO DOS "IRMAOS" DE JESUS
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Os católicos acreditam na virgindade permanente de Nossa Senhora, isto e', que Maria se tornou Mãe de Jesus, verdadeiro Filho de Deus, e permaneceu sempre virgem: antes, durante e depois do parto. Contra esta fé, os protestantes usam o argumento de que vários textos do Novo Testamento falam dos "irmãos" de Jesus, que chamam Jesus de "filho primogênito". O que dizem os textos do Novo Testamento? 

São sete os textos do Novo Testamento que mencionam irmãos de Jesus: Mc 6, 3; Mc 3, 31-35; Jo 2, 12; Jo 7, 2-10; At 1, 14; Gl 1,19; 1 Cor 9, 5. Conforme Mc 6, 3 e Mt 13, 55, chamavam-se Tiago, Jose', Judas e Simão. O texto mais expressivo e' o de Mc 6, 3: "Tendo Jesus pregado em Nazaré, sua cidade natal, os ouvintes, admirados, perguntavam donde Lhe provinha tanta sabedoria, e acrescentaram: 'Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas, de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?" É um texto muito claro e muito precioso, porque nos diz até os nomes dos irmãos de Jesus. Mas exatamente isto nos ajuda, porque há outros textos que nos dizem quem são estas pessoas citadas aqui como irmãos de Jesus. Vamos comparar este texto com os dois outros. Mt 27, 56 nos diz que, entre as mulheres que assistiram a crucifixão de Cristo, estavam "Maria Madalena e Maria mãe de Tiago e de José e a mãe dos filhos de Zebedeu" (veja também Mc 15, 40: "Achavam-se ali também umas mulheres observando de longe. Entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago Menor e de José, e Salomé...") Os dois textos acima, definem, que havia, aos pés da cruz, uma mulher chamada Maria e que era mãe de Tiago e de José, os mesmos nomes que são chamados no Mc 6, 3 de irmãos de Jesus. Esta Maria era a mãe de Jesus (esposa de José) ou uma outra Maria? A esta pergunta responde São João, capítulo 19, versículo 25. Vejamos: "Estavam junto à cruz de Jesus sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria esposa de Cleofas, e Maria Madalena". Os dois textos indicam que a mãe de Tiago e de José era a irmã de Nossa Senhora. Segundo o testemunho de um mais antigo historiador da Igreja, do século II, Hegesipo, Maria (a irmã de Nossa Senhora) e Cleofas, eram os pais de Tiago e José; tinham um terceiro filho, Judas (não Iscariotes), o qual no inicio da sua epístola se apresenta como irmão de Tiago. Segundo Hegesipo, ainda, Cleofas era irmão de São José. Quanto ao Simão, o quarto dos "irmãos" de Jesus, Hegesipo o apresenta também como filho de Cleofas. 

Não são, portanto, os irmãos carnais de Jesus os quatro citados: Tiago, Jose', Judas e Simão, mas simplesmente primos de Jesus! 

Se são primos, por que são chamados de "irmãos"?

É muito simples, mas para compreender isso devemos compreender a cultura dos tempos e do pais onde Jesus viveu. As pessoas, no tempo e no pais de Jesus, falavam a língua chamada aramaico. Era uma língua muito antiga, mas também bastante pobre em expressões, quer dizer, que uma palavra significava mais de uma coisa ou designava mais de uma realidade. As pessoas entendiam o significa- do conforme as circunstâncias. Já os paises vizinhos, falavam a língua grega, mais rica em vocábulos e conceitos. A Bíblia, e especialmente o Novo Testamento, foi escrita na maior parte no ambiente aramaico, mas algumas partes foram concebidas no ambiente grego. Na questão que nos interessa, uma única palavra "ha" (irmão), no ambiente aramaico, significava membro de uma família, isto é, não somente os filhos dos mesmos genitores, mas também os primos ou até parentes mais distantes. Há no Novo Testamento lugares onde se usa a palavra "primo". É exatamente onde se compreende a influência da língua grega nos textos do Novo Testamento. Como exemplo, vamos citar alguns textos do Antigo Testamento: Gn 13, 8: "Abraao disse a seu sobrinho Lote, filho do seu irmao: 'Somos irmaos' ". Ver tambem Gn 14, 14-16. Gn 29, 12-15: Jaco' se declara irmão de Labao, quando na verdade era filho de Rebeca, irmã de Labao. Ver ainda: 1 Cr 23, 21-23; 1 Cr 15, 5; 2 Cr 36, 10; 2 Rs 10, 13; Jz 9, 3; 1 Sm 20, 29.

Filho primogênito

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O Evangelho de São Lucas diz: "E deu (Maria) à luz seu filho primogênito e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria" (Lc 2, 7). Para alguns o termo "primogênito" significaria que Jesus seria o filho primeiro, após o qual teriam de vir outros. Acontece que quem pensa assim demonstra um total desconhecimento do sentido bíblico da palavra "primogênito". Ela se refere não à quantidade (= primeiro na fila), mas à qualidade, isto é, a primogenitura significava a posição privilegiada do filho que nasceu primeiro e por isso dotado de especial amor dos pais, de especiais bênçãos de Deus, com direito a herança e como cabeça da família, chefe dos outros irmãos, se os tiver. Não significa, em absoluto, que era chamado "primogênito" porque havia outros após ele. Poderia bem ser filho único e ser chamado "primogênito", pois sobre ele pousava o privilegio da primogenitura. Usando esta expressão, São Lucas quis destacar o caráter singular desta natividade para a Sagrada Família, fato que para cada família era motivo de grande alegria. Com freqüência, na Bíblia e nas expressões antigas encontramos expressões onde "primogênito" significa também "unigênito". E' o caso de uma inscrição sepulcral judaica, datada do ano 5 antes de Cristo e descoberta em Tell el-Yedouhieh (Egito) no ano 1922: lê-se aí que uma jovem mulher chamada Arsinoe' morreu "nas dores do parto de seu filho primogênito". A palavra "primogênito" significa apenas aquele antes do qual não houve outro, não necessariamente aquele apos o qual houve outros. "Mulher, eis ai' teu filho..." (Jo 19, 26)

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Ao morrer na cruz, Jesus confiou a sua Mãe ao discípulo São João. Se Maria tivesse outros filhos, seria lógico que esses assumissem os cuidados pela mãe, ainda mais no ambiente judaico. Jesus teria feito um grande desaforo `a sua família se, tendo irmãos carnais, entregasse a sua mãe a uma pessoa estranha!

OBS.: Este texto e' uma copia de trechos de dois artigos publicados na revista "Cavaleiro da Imaculada" - N. 176/177 - agosto/setembro/1993 Os artigos são baseados no livro "Diálogos Ecumênicos" de D. Estevão Bittencourt.

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